Por vários motivos, e alguns falarei a seguir, hoje estou extremamente tocado, digamos assim, e sentindo uma grande necessidade de escrever. Pensando um pouco mais, ocorreu-me que o blog completa seis meses em três dias. Juntando tudo, julgo mais que necessário, para mim pelo menos, fazer um balanço de tudo que aconteceu desde então.
Em primeiro lugar, o blog surgiu como uma forma de explorar a mim mesmo e minhas ideias de uma maneira mais ampla e menos hipócrita. Um lugar onde não existia meu eu construído, aquele que construí ao longo da vida e do qual todos que me rodeiam tem expectativas fruto do "óbvio". Era uma forma de conhecer pessoas que viviam a mesma situação de dúvida com sua sexualidade, problemas de autoaceitação ou simplesmente por viverem no armário. Outros similares e afins se aplicam. Seis meses atrás me permiti nascer de novo e começar o mais do zero possível. Escondido, mas consciente. Receoso, mas corajoso... e não, não é incoerente, pois a coragem é fazer e ir atrás quando se está borrado de medo.
Começou uma avalanche na minha vida pessoal, na qual me encontro até agora. Permiti explorar minha sexualidade como jamais sonhei. Bom... eu tinha imaginado bastante. Posso dizer que, este blog (inspirado por outro blog que acompanhava já havia oito meses, na época) me proporcionou muito mais do que abordar temas que me incomodavam e ganhar valiosas opiniões sobre cada um. Por aqui, vim a conhecer pessoas de grande mente e espírito. Pessoas cuja identificação (e isso acontece de várias formas) aconteceu tão rápido que, sem perceber, ganhei amigos com A maiúsculo. Longe de qualquer julgamento, de um jeito natural. Aqui, só vale a sinceridade. Por isto, meus caros, muito obrigado!
E como problemas são relativos na vida, toda sequência de fatos incorre em, necessariamente, novas perspectivas, novas direções e novos pontos de conflito. Hoje em dia, minha sexualidade segue a pauta. Estou aprendendo a cada dia me cobrar menos em relação à decisões. Tem coisas que são difíceis. Preto no branco é sem graça. Melhor colorido e em degradê. Rsrsrs. Tudo lindamente misturado. Sendo assim, tenho outros paradigmas agora. Tenho sofrido para juntar as duas partições que minha vida ficou. Uma vida "dupla" dá trabalho. Inventar desculpas para escapar de compromissos no lado A para deixar o lado B ser feliz pode ser muito estressante. Sair duas vezes no fim de semana para atender os dois lados, duas vontades diferentes. Velhos amigos, novos amigo. O que fazer quando a nossa própria felicidade e bem-estar tomou conta de um pedaço tão grande de nós que aniversários são esquecidos? E até entes queridos descem na lista de prioridades? Se descobrir... não, sempre me fui descoberto, acho que permitir é a palavra que melhor atende à minha situação de vida emocional específica... é como se fosse receber a nota de uma prova que se estudou muito, mas que se tinha medo de ser reprovado. É uma sensação de abertura no peito. Sinto, hoje, uma força tão grande em mim que tenho a sensação de que posso fazer qualquer coisa. É libertador.
Nesses seis meses, como já falei, vivi experiências e conheci pessoas virtualmente e pessoalmente (e, incrivelmente, os virtuais são tão presentes quanto) tão especiais que não encontro palavras para descrever. Mas, posso dizer com segurança, as quero por perto por muito tempo. Talvez pelo fato de que minha família é um pouco complicada, meus amigos sempre tomaram um lugar muito grande no meu coração e uma importância maior ainda na minha vida. Os considero mesmo família. São a melhor que tenho. Não sou o tipo O POPULAR, capitão do time de futebol, nem nada, mas venci minhas dificuldades de fazer amizade da adolescência e fiz alguns também não tão poucos amigos. E esse número cresceu no período de nosso balanço. Hoje, sofro porque quero unir meus dois lados. Esconder da família não me machuca 1/5 do que esconder deles. E quero dar a devida importância aos novos, pois em pouco tempo eles se tornaram fundamentais para mim. Ontem, por exemplo, conheci mais uma amiga através de um amigo. Fotos e status em facebook me mencionando. Tudo represado na Análise da linha do Tempo. Não é por isso, exatamente, pois a exposição não é o ponto, mas consigo fazer uma ponte simbólica com a palavra "represado". Já represei demais, não tem comporta que resista.
Agradeço pelos últimos seis meses a todos que aqui estiveram, mais ainda aos que mandaram email, mais ainda aos que comentaram e mais ainda aos que viraram amigos. Recomendo aos que apenas lêem que comentem, que mandem email, que, POR FAVOR, falem, conversem. Ninguém está sozinho nessa. não precisa ser comigo. Com outros. Se a criatura se propôs a isso, ela espera isso.
Continuando a onda de contar um pouco mais da minha evolução pessoal, chegamos ao capítulo de hoje. Ele é um resumo das últimas semanas, nas quais tenho focado muito em unir os dois lados da minha vida. O que todos conhecem e o que eu tive que criar para experimentar de forma "anônima" a minha sexualidade. O anônimo era um guri medroso que foi crescendo e, de vez em quando, pode ser bem turrão e dono de si. Ele cresceu demais para ficar tão amassado dentro do armário. Começou a precisar abrir um pouco a porta do armário.
Há muito que me incomodo em mentir para meus amigos, como já falei. Estava pesado demais. Nesse ano, uma amigona de muito tempo se tornou mais próxima ainda, por "n" motivos. Então, foi a escolhida. Na verdade, escolhida não é a palavra. É mais uma questão de merecimento. De não ser justo da minha parte não confiar nela e, diga lá, mentir. Uma vez tomada a decisão de contar, foi uma questão de tempo. De esperar a oportunidade. E ela se deu nessa semana que passou. Por coincidência, ela me ligou convidando para comermos alguma coisa à noite (moramos no mesmo quarteirão). Pedimos aquela pizza e, depois, perguntei se ela estava disposta a fortes emoções naquela hora. "Sempre."
Não vou me alongar. Basta dizer que foi surpreendentemente mais fácil do que o melhor cenário que imaginei. A reação dela não poderia ter sido mais bacana. Foi simplesmente, absolutamente, natural. Agora é uma questão de me acostumar a contar as coisas para ela. E passar pelo momento um pouco mais difícil de levar ela para uma festa gay. Porque sim, não tenho escolha. hahaha
É muito bom se sentir aceito. O mais engraçado dessa sensação é o fato de que nada mudou.
Em meio a essa manifestação nacional e internacional, uma muvuca tão linda e inspiradora como todas as que geram os pensamentos mais inovadores e mais difíceis de se encarar, as quebras de paradigmas, me encontro em uma manifestação pessoal muito forte também. Já falo sobre isso. Antes, não posso deixar de comentar o nosso Brasil.
Sinto um orgulho muito grande desse novo movimento. Vejo a importância que ele está tendo de várias formas. Uma delas foi me tirar da inércia e indiferença que sinto há anos, votando nulo eleição após eleição por simplesmente não acreditar em nada e ninguém. Individualista e mau cidadão? Talvez. Provavelmente, até. Mas, ora. Foi o que aprendi vendo defecarem no país ano após ano. Vendo preconceituosos ganharem palco como se fizessem os melhores stand up comedies. Well, este tempo passou. O #AcordaBrasil serviu para me acordar também. Sinto que posso fazer a diferença de novo e tenho vontade de me politizar novamente como já fiz um dia. Porto Alegre tem dois protestos essa semana. Espero estar presente nos dois. Vamos mudar o país.
O Infelizciano tem uma atenção minha a mais, devo dizer. E, não se enganem. Ele nem homofóbico é. É tão cretino que usa essa plataforma apenas para conseguir platéia (que acho que não tem mais acento) para seus planos futuros. Ou seja, o desgraçado consegue ser tão maquiavélico que é pior do que se fosse só homofóbico. Ele espalha o preconceito para subir de posto. Os homossexuais são só um degrau para ele. Mas, a César o que é de César. Eles passarão, nós passarinho, parafraseando Mário Quintana.
Já nas minhas manifestações pessoais, chego num limiar bem interessante. O aprofundamento da minha vida homossexual me obriga a pensar muitas coisas diferentes. Fui aconselhado a contar mais minha história aqui para que possa ajudar algumas pessoas. Criei meus pudores com o blog, preciso confessar. Talvez por ter me aproximado bastante de algumas pessoas que conheci por essas bandas. Talvez nada a ver. Mas, pensando bem, acho que é, no mínimo, uma dívida que tenho com essa parte do mundo aqui. Afinal, se não fosse acompanhar um blog por um período de aceitação bem difícil, não sei se estaria no ponto onde estou hoje. Se teria evoluído como evoluí nos últimos 6 meses. Muita coisa acontece e não vem pra cá. Vou tentar mudar isso um pouco. Não esperem o diário de um adolescente. Mas, quem sabe?
Nos últimos tempos, conheci vários caras. Uns se tornaram amigos, outros foram só casinhos, one night stand e coisas do tipo. Uns nem vi em carne e osso até hoje. Apenas pelo saudoso msn e odioso skype. Outros passaram de fase e foram para o facebook. Outros são amigos aqui em POA mesmo e são parceiros de festa gay. Parece incrível de início, mas quando penso com mais calma vejo que faz todo o sentido, mas esses novos amigos se tornaram parte importantíssima da minha vida. Uma conversa com eles vale mais que dez com meus amigos "oficiais". Porque com eles me sinto quem eu realmente sou. Não preciso cuidar respostas em assuntos que prefiro não falar.
Enquanto isso, meus amigos "oficiais" e eu acabamos ficando mais afastados do que eu gostaria. Meu lado B ganhou mais espaço em minha vida que o A. Disparado. E já tá na hora de começar a colar esse monte de peças. Porque vida dupla é para quem faz coisa errada. E eu, definitivamente, não estou fazendo nada errado. Tenho mentido muito para pessoas muito importantes para mim para viver o que, de fato, é a minha vida hoje em dia. Isso não mais me faz bem. A adrenalina é excitante no início, até cansar. Estou errado em duvidar da reação de pessoas que me dão motivos para confiar todos os dias. Vou contar para a primeira pessoa do mundo "real" (que uma vez foi). Hoje um desses amigos me lembrou de uma frase que eu sempre disse muito. Em algum ponto, eu tinha esquecido dela. A vida é uma só. Não a deixemos para trás.
A criança é pura. Nada melhor para limpar a alma da gente do que escutar aquela gargalhada incrível de um bebê. Absolutamente natural, absolutamente pura. Sem maldade. Bom, em algum momento dá merda.
Me lembro de enxergar a maldade nas pessoas desde os meus seis anos. Claro que eu sempre estive rodeado por gente maldosa pra caralho. E sim, estou me referindo aos dois lados da minha família. Que me cercou até meus 17 anos, certamente. Só aí eu consegui cortar (um pouco) laços. Laços que já nem tinha mais, apenas por culpa. Ao natural, me desvencilhei e fui cuidar da minha vida. O afastamento acontece por osmose (só que ao contrário) quando não temos ligação nenhuma, a não ser a falsa obrigatoriedade que o sangue nos impõe. Bobagem. Minha família é bastante resumida hoje em dia. E é maior com aqueles que não tem o mesmo sangue que eu, provavelmente. Família se define por quem nos acolhe e ama sem obrigação. Talvez todos tenham nascido puros e o meio os deturpou. Talvez nada disso e algumas maças tenham nascido podres mesmo.
O último mês provou o quanto conquistamos pessoas. Geralmente, e desta vez não é exceção, percebi que ganhei quando, de certa forma, perdi. Clichê afu, mas é assim com todo mundo, nao adianta negar. A sensação de perda tem um poder enorme de epifania. A parte de perda veio de alguns damaged goods, mas a parte do ganho veio ao natural.
Dito isto, acho que é bem fácil entender meus receios na integridade e postura empática dos outros. Mas, me esforço para me abrir e me entregar mais. Ao ponto de desconstruir ideais. Enrolei até aqui para chegar no ponto principal. Sem me dar conta, tenho conseguido desconstruir os parâmetros que construí para mim mesmo. Ora pois, já diria qualquer português, todos criamos os nossos. Fato é que criei os meus bem longe da realidade. Considerado pelos mais próximos um juiz quase, tenho me posto em conflitos internos por relativizar a ética. Sempre cuidadoso com o sentimento dos outros, tenho sido um tanto egoísta e filho da puta, até. Mesmo a favor da transparência, aprendi a ser falso com quem merece... ou que não merece mais que isso.
Baboseiras à parte, em breve, prometo, posts mais concretos.
Confesso que fico um pouco frustrado com a correria que a vida leva a gente. Nós últimos dias/semanas as coisas andam atropeladas, na falta de descrição melhor. Hoje, para quem está em Porto Alegre, dá para aproveitar a chuva pra ficar na cama botando a cabeça em ordem. No caso, o meu caso.
Recapitulando:
Cabaret Voltaire pegou fogo;
Inês Brasil virá a POA, graças ao nosso senhor Jesus Cristo;
MC Beyonce esteve aqui;
Passou o dia das mães;
As obras da copa seguem atrasadas;
O leite estragou;
O casamento gay foi aprovado. Diante de Feliciano e Malafaia, salve, já diria IB;
Agora temos mais uma rede social. Bem-vindos à Web 3.0 e ao Teckler. Que fiquemos ricos.
Dias intensos. Tento matar a fome que minha ansiedade gera. Fome em um sentido metafórico, que me deixa desfocado. Vejo que me aproximo de um momento de verdade. Sentir-se em dívida com alguém pode ser muito esclarecedor. Nossos valores ficam mais claros. Como sempre, uma visita à cidade natal traz muitos assuntos à tona.
Enquando isso, assisto Queer As Folk que parei na segunda temporada, depois de ter sido pego assistindo pela minha mãe. Na época, eu devia ter uns 15 anos, ela não aceitou muito bem o fato de eu estar assistindo. Apesar de eu ter ganhado o Oscar pela atuação de indiferença, foi perturbador para ela. Parei de assistir. Achei melhor não correr mais o risco. Tinha esquecido disso. Lembrei há poucos dias. Para quem ainda não assistiu (a série acabou há um bom tempo já), recomendo muito.
Vamos acompanhar.